Esse blog é dedicado a todas as mães que ficaram e foram obrigadas a ver suas filhas partirem sem um motivo real, de forma brusca e cruel assassinadas pelos companheiros, namorados, pelo chamado crime passional. Como dói esta ausência.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Um breve relato sobre
Tenho pesquisado todos os dias, sobre o comportamento humano, tentando descobrir o que acontece com as pessoas que não sabem aceitar uma negativa. Minha filha viveu um casamento tumultuado, basicamente seis anos de enganos. Enganos porque na realidade ela achava que o seu amor era o bastante para conseguir superar todos os problemas, todas as discussões, todos abandonos. Tiveram um filho e,em todos esses anos de convivência, o filho crescendo e acompanhando os disturbios dos pais, por conta disso começou a ter problemas de saúde, que os médicos diagnosticaram como refluxo. Hoje graças a Deus saudavel, não teve mais nenhuma crise de refluxo, está forte e muito bem.
Outubro de 2009 ela me chamou para falar das suas decepcões e frustações que o casamento vinha deixando mas, ainda assim continuava tentando pois sempre dizia que deveria continuar tentando pois, ainda tinha um sentimento de carinho por ele e respeito. Em meados de novembro outra crise e novamente minha filha me procura e fala pra mim, "mãe está ficando cada vez mais dificil conviver com Leo, estamos dormindo separados, decidimos que ele deve voltar para casa de seus pais ou arranjar um outro lugar para morar". Confessou para mim que o casamento realmente acabara e que estavam vivendo na mesma casa mas, não tinham mais nenhum contato. Durante anos eu ouvi isso, ela voltava para minha casa e passava alguns dias ele pedia perdão e, estavam juntos novamente. Foi então que passei a ter a atitude de não me envolver diretamente mas, dizia sempre que o dia que ela realmente decidisse que a sua vida teria um novo rumo sem seu companheiro, ela e o filho poderiam morar comigo pro resto de suas vidas.
Dezembro de 2009, mais uma vez Heide me procura na padaria, tinhamos uma padaria, Fomos ao escritório e seu rosto estava endurecido, olhar entristecido, como é dificil para uma mãe ver um(a) filho(a), sofrendo sem poder tomar nenhuma resolução, sempre disse para os meus filhos que a vida é para ser vivida com plenitude e sabedoria e, que só o que vale é ser feliz, vivendo cada momento, cada dia como se fosse o último, ser honesto consigo e com o próximo e, sempre se colocar no lugar do outro quando tomarmos qualquer decisão ou atitude, não dizer coisas que venham a se arrepender depois e, sempre digo para os que ainda estão aqui; amem-se verdadeiramente pois, não podemos amar o próximo se não nos amarmos. Disse Jesus " Amarás o Senhor teu Deus de todo coração, de toda sua Alma e, ao teu próximo como a Ti mesmo".
Foi neste dia que Heide chamou a mim e ao meu esposo e pediu para voltar para casa pois a situação já estava ficando insustentável. O nosso apartamento estava vazio, nós estávamos passando um tempo na casa da minha sogra, para ajudá-la a cuidar da sua máe que tem o mal de alzeimer. Falamos pra ela que se realmente isso era definitivo ela poderia mudar a hora que quisesse, o apartamento precisava apenas de alguns ajustes como rede de proteção por causa do pequenino.
Inicio de janeiro ela e o filho passaram a viver novamente sob o meu teto. Começou a viver mais tranquila, mais feliz e cheia de planos para o futuro.Fevereiro, março, abril se passaram, eu e Leco de vez em quando íamos dormir em casa era uma alegria quando chegavamos, ela sempre falava com carinha de dengo "ah mãezinha venham logo pra casa, a gente fica aqui tão só"". Nós respondíamos em breve, em maio estaremos aqui, o tio de Leco iria chegar do Rio para ajudar com a mãe dele e voltaríamos para casa.
Maio dia 5 de 2010 retornamos e a alegria foi geral. Sua rotina, pegava a moto pela manhã, ia para o trabalho no SAC e depois ia para o GAPA, chegava às 17/18:00h tomava banho com o filho, brincava um pouco com ele, conversava um pouco comigo e com Leco meu companheiro, por quem ela tinha muito carinho e respeito e depois pegava a moto e se encaminhava para faculdade, estava cursando direito.
Ainda hoje quando estou em casa assistindo tv por volta de dez horas(22:00h), ouço a porta da frente abrindo e ela perguntando "mãezinha você está ai em cima?". Nosso apartamento é um duplex e os quartos ficam na parte de cima. Eu respondia "estou", ela subia, chegava me beijava e deitava atravessada no pé da cama e ficava conversando as vezes coisas sérias e as vezes bobagens e ríamos, Leco adorava quando ela chegava pra conversar, assistir futebol(era São paulina)e, ficava uma bagunça danada na cama pois o filho só dormia as vezes quando ela chegava, mas estávamos todos felizes.
Durante todo esse período de separação o ex-marido, passou a me procurar para me pedir ajuda dizendo que foi preciso que ela tomasse essa medida para que ele realmente tomasse consciência que não suportaria a distância e que realmente a amava, queria sua familia de volta a qualquer custo, faria qualquer coisa para tê-los de volta. Em fevereiro eles foram para Ilhéus para tentar uma reaproximação a meu pedido. No retorno ela confessou pra mim que não tinha mais condição de refazer uma história que já tinha finalizado. Falei pra ela que então fosse bem clara com ele e buscasse seguir em frente e que deveriam manter um realionamento amigavel pois o filho não precisaria sofrer as consequências dos problemas causados pelos pais. Ela concordou e procurava manter uma atitude amigavel entre os dois.Final de abril ela veio até a mim para falar a respeito de um rapaz que se mostrou interessado nela e que a estava cortejando e ela estava gostando pois ele a tratava com muito respeito e começaram a sair.
Leo passou a segui-la e continuou me procurando para falar a respeito dos seus sentimentos e sempre dizia que queria a familia de volta, mas passou a ter umas atitudes diferentes e, eu e meu esposo começamos a conversar com Heide a respeito dele e pedíamos a ela que evitasse aparecer em público com o rapaz pois sabiamos que Leo estava seguindo seus passos obstinadamente. Mas ela sempre dizia que ele não sentia amor por ela que isso era posse, mas que não era capaz de cometer nenhum ato violento e, logo logo iria esquecer e, que até no orkut ele ja a tinha eliminado e colocado no perfil como solteiro e disponivel.
A última vez que ele conversou comigo ele disse saber que Heide não tinha mais nenhum sentimento de amor por ele mas que se ela o aceitasse de volta ele a queria assim mesmo, iriam embora daqui (Itabuna), iriam pra qualquer lugar que ela quisesse e procuraria ser feliz com seu filho e sua mulher.
Eu falei pra ele, "mas meu filho, como vc pode querer viver com alguém que você mesmo acaba de dizer que sabe que já não o ama mais? Pense meu filho que o amor só é válido se existe reciprocidade, como poderá ser feliz com alguém infeliz a seu lado isso não existe, vá ser feliz, encontre alguém que te ame, vcs estão unidos peo filho e apenas isso, cuidem dele para que ele não se torne uma criança infeliz o que mais importa hoje de tudo isso é seu filho, nunca o abandone." Ele chorou e fiquei penalizada, me abraçou e falou que eu tinha razão. Contei para ela e ela perguntou para mim, "mainha o que quer que eu faça, que eu volte a ter aquela mesma vidinha de prometo que vou mudar, uma semana bem e duas infeliz? Eu gosto muito dele mas o amor se perdeu no tempo, eu o respeito e quero o bem dele, mas quando eu digo não ele só está tomando uma atitude de menino mimado. Sempre que a gente conversa eu falo pra ele procurar fazer um mestrado, estudar pra concurso, ele tem um futuro brilhante mas sem mim, não posso mais mainha me permitir viver aquela vida tenho que pensar em meu filho também."
"Não filha, não te falei para você voltar, mas para saber que ele não está bem e preciso que você se reserve, evite confronto." Meu esposo conversava muito com ela sobre homem com orgulho ferido e se sentindo rejeitado, mas ela acreditava que ele não era capaz de fazer nada que viesse a machucá-la ou a seu filho. sempre que ele queria conversar ela nunca se negou.
Junho/2010 dia 15, chegou de Salvador e veio a nossa casa buscar o filho para assistir ao primeiro jogo do Brasil na copa. Ela tinha organizado uma festinha de reunião com os amigos do SAC e estva apenas esperando que ele viesse pegar o filhote. Eu estava em cima no meu quarto quendo comecei a ouvir uma discussão, ele pedindo a ela que saisse com ele para conversar e ela dizendo que não tinha mais nada a falar com ele, e que já estava atrasada as pessoas a estavam esperando e ele insistindo, foi quando eu interferi pedindo a ele que deixasse aquela conversa para outro dia, outra hora. Ela se foi e ele tambem, fui até a varanda e olhei para ele que estava com o olhar vermelho e transtornado, tive medo. Falei pra meu esposo, "Leco me deu medo, acho que Leo vai fazer uma bobagem, os olhos dele me disseram que ele vai cometer uma loucura. Tentei falar com ela mas não consegui, ia pedir para que ela não saisse com ele sozinha. Nesse dia ela resolveu ir para casa do namorado.
Dia 16 era o dia da festinha do filho na escola(encerramento de São João) e eu sempre costumava ligar para ela pela manhã mas nesse dia esqueci, liguei pra ele pra saber da camisa do filho e ele usou esse pretexto para sequestrá-la.
Eram 13:00h liguei para casa da sua mãe para saber se ele iria levar a camisa ou se eu pegaria lá quando descobri pelo desespero dela que algo ruim estva acontecendo.
Cheguei em casa, verifiquei tudo ela tinha voltado para casa, tomou banho e estva indo para o trabalho, deixou a moto ela nunca saia sem moto. Liguei para o trabalho e disseram que ela não tinha aparecido. Começou minha angústia, ninguém viu, não sabíamos onde procurar, não dormi, não mais consegui conciliar o sono, eu só orava e pedia a Deus que ela voltasse. A noite foi longa, liguei para o celular dela e dele durante toda a noite, mandei mensagem pra ele, nenhuma resposta.... o silêncio... a angústia e o pedido de socorro a Deus. Minha Fortaleza meu tudo é Jesus, minha súplica de mãe para que trouxesse de volta a minha filha, sei que ELE me colocou no colo e me deu forças e sabedoria para suportar o que estava por vir.
Dia 17/junho/2010 saímos a vasculhar em busca de ajuda da polícia militar, civil, jornais, as duas familias em desespero. Por volta das 15 ou 16horas não sei precisar o telefonema, o delegado me comunicando que foram encontrados, num local com um nome tenebroso (Volta da Cobra), nunca nem tinha escutado sobre isso nunca imaginei que existisse um local no mundo com um nome desses, mas minha filha estava lá, morta, morta pelo pai do seu filho, que logo a seguir cometeu outra atrocidade o suicido. Não pensou no filho, nos pais, irmãos, não pensou que essa atitude viria a acarretar sérios problemas para ambas as famílias. Não pensou em Deus, Não ouviu a voz do amor, não lembrou que a gente não morre e que a vida continua mesmo depois do corpo físico. Não tinha amor por ele mesmo como poderia amar ao próximo. Não pensou no filho... não pensou em nada a não ser no seu ego... e agora. Mas não consigo odiá-lo, eu o amava como a um filho, que pena meu Deus.
Mas Deus ELE é infinitamente perfeito e eu não consegui ver apenas a minha dor, mas principalmente a dor dos seus pais que não sabiam o que fazer, se sentiram perdidos, como poderiam imaginar que criariam um filho com tanto amor, educariam e o veriam crescer, ser um profissional na area de direito, um advogado com um futuro brilhante faria uma loucura dessas.
Agradeço ao BOM e MARAVILHOSO DEUS, por me amparar e me dar forças para suportar essa dor da separação e a saudade infinita, e permitir que ele tenha deixado o seu filho para me dar motivos pra continuar lutando. Mães não é facil perdoar se a gente não se coloca no lugar da outra mãe que não imaginou jamais que seu filho, aquele bebezinho que como o nosso cresceu e que a gente sempre acha que conhece e que é incapaz de qualquer coisa que venha machucar ou ferir alguém.
Peço a Deus por todas as mães e pais que choram por seus filhos que se foram e, espero poder reencontré-la.
domingo, 17 de julho de 2011
sábado, 16 de julho de 2011
Por Manuela Berbert
Para sempre uma saudade chamada HEIDE...
Início de 2008, primeiro semestre de Direito na antiga Facsul (hoje UNIME), sento ao lado de Heide, quem eu já conhecia há muito tempo, mas não tinha estabelecido grandes laços. Ainda observando a turma, percebo uma colega adentrando a sala com uma roupa extravagante. Entreolhamos-nos com cara de riso, quando ela me perguntou: ‘será que estamos rindo da mesma coisa?’ Estava traçada ali uma AMIZADE mais forte do que eu imaginava. Foi um ano de muita parceria, trabalhos acadêmicos, provas em dupla, conversas e confidências. Um ano de amizades e laços indescritíveis. No início de 2009 Heide me avisou que precisava transferir de faculdade. Já matriculada, não sei ao certo por quanto tempo ainda continuei indo à UNIME. Lembro que um dia a encontrei na rua e no outro dia, à noite, já estávamos JUNTAS numa sala de aula na FTC, rindo, conversando, tendo nossos tantos devaneios sobre o futuro, sobre a vida, sobre as pessoas ao nosso redor. Eu nunca soube dizer NÃO pra ela. Lembro ainda que, logo nas primeiras semanas de aula, o professor e advogado Francisco Valdece pediu que a dupla SUPERPODEROSA ‘calasse a boca’ e prestasse atenção na aula. Rimos muito porque, coincidentemente, era o apelido que tínhamos, com Anna Vitória e Dani, quando na Unime...
Nós nunca fomos amigas de farra, de mesa de bar. Nossa amizade foi pautada no companheirismo diário. Na verdade, Caio e Léo sempre foram prioridades para Heide. Por isso, nos víamos e conversávamos muito pouco durante os finais de semana. Porém, era comum receber telefonemas ou torpedos que diziam: ‘amiga, me conte sua vida’, ‘amiga, manda notícias’, ‘amiga, estava olhando seu orkut: sua vida me diverte!’, ‘amiga, eu já disse que te amo hoje?’ (as respostas sempre foram recíprocas verdadeiras) Heide raramente me chamou de Manuela. Era ‘amiga’ ou no máximo Manu ou Mano, embora tenha morrido de vergonha quando Caio disse que eu não tinha cara de Tia Manu, só de Manu. ‘Amiga, Caio sabe das coisas, é inteligente... ’
(...)Durante esses dois anos e meio de convivência ela se tornou uma pessoa muito especial em minha vida, com quem eu aprendia e conversava muito. Simples, meiga, inteligentíssima, era capaz de me ligar e dizer ‘amiga, me passa sua parte do trabalho pra eu fazer porque você vai sair e vai ficar com preguiça no domingo’ com o mesmo tom de voz meigo que dizia ‘amiga, vamos fazer alguma coisa hoje?’ E a gente sempre fazia. Eram programas e momentos simples, mas únicos, que vão ficar na minha memória para sempre: comer alguma besteira na rua, tomar coca-cola zero no shopping, ou passear na Marisa. (risos) Porém, eu nunca fiz planos de montar um escritório com Heide. Eu sempre tive a CERTEZA que minha AMIGA iria passar num concurso assim que concluísse o curso, tamanha era a sua facilidade...
De janeiro pra cá, já separada de Léo, Heide queria apenas viver, ou, como ela mesma dizia, ‘ser feliz’, embora não soubesse explicar muito bem o que era essa tal felicidade a que ela se referia. Salvo engano, sua primeira grande festa solteira foi o show da Banda Eva, em Olivença, na companhia de Tici e Tai. Passamos a noite toda na frente do palco quando, insistentemente, ela subia na caixa de som, pulava e abria os braços. O segurança dava risadas e pedia que ela descesse. Dois minutos depois, lá estava ela novamente, sorrindo, achando a maior e melhor diversão do mundo aquela sensação de liberdade que estava experimentando...São incontáveis momentos e estórias, mas lembro com carinho de uma sexta-feira à noite em que
recebi uma ligação sua: ‘Amiga, me leva pra onde você for. Quero me arrumar, quero sair!’ Ela foi comigo a um jantar no Hotel Jardim Atlântico, em Ilhéus. Depois fomos dançar na boate Ballo. Lembro desse dia em especial porque, na volta pra casa, ela me confidenciou que não sabia se iria se acostumar à vida de solteira, e que continuava olhando no espelho e se perguntando: ‘cadê você que não aparece, amor da minha vida?!?’
Heide era uma menina séria e responsável, mas que tinha umas tiradas engraçadas sobre o cotidiano. Éramos unidas pelas confidências, pelos devaneios, pelas tantas observações que fazíamos sobre o comportamento humano. Tenho nítida na minha memória também uma noite em que saímos as duas apenas, fomos ao Restaubar e bebemos muito, coisa que nunca tínhamos feito antes, juntas. Brindamos a tudo: às decepções amorosas, à profissão de advogada cada vez mais próxima, ao São João desse ano, à aquisição da sua primeira moto, a Caio, aos homens com cara de ‘bolo solado’ e a um passeio de cruzeiro que ela tanto sonhava...Não estava namorando, como dizem por aí. Estava ‘vivendo’ algo, sem rótulos. Redescobrindo os sentimentos e descobrindo coisas simples, como a primeira vez em que pintou as unhas de vermelho e demorou a se acostumar, me perguntando a cada segundo se não estava estranho...
(...)
Na quarta-feira passada, quando me ligaram pela primeira vez perguntando por ela, eu estranhei. Na segunda ligação, eu me preocupei. Na terceira, me desesperei. Heide era previsível. Seu celular estava sempre ligado, ela retornava todas as ligações, respondia todos os torpedos e e-mails, e dava satisfação da sua vida com muita facilidade, especialmente por carregar consigo a responsabilidade de ser mãe. Após uma tarde aflita de ligações e busca, fui ao aniversário de Diogo Caldas no Maison Marie. Assim que entrei, me dei conta de que não tinha ido ao salão e sequer lembrado de comprar seu presente. Fiquei me perguntando o que estava fazendo ali, levantei e fui ao encontro dos nossos amigos Candinho e Daniel para que fôssemos à delegacia. Buscávamos uma resposta. Aquela sensação de ‘espera’ foi uma das piores já experimentadas. Muita coisa aconteceu até que na quinta à tarde, sentada na redação deste Diário Bahia, recebi a ligação de minha mãe dizendo: ‘Venha pra casa, minha filha. A notícia não é boa...’ Acho que surtei. De um lado, o alívio por ter encontrado. De outro, a certeza de que nunca mais eu iria escutar a sua voz me chamando de AMIGA.
A primeira cena que me veio à cabeça foi na FTC, recentemente, embora não lembre a data com precisão. Estava fazendo prova numa sala e, quando saí, ela estava sentadinha no banco me aguardando, de surpresa. Disse que queria conversar. Dentre tantas coisas e alguns planos, me confidenciou que estava muito feliz. E isso é o que ME importa. Se soubesse que aquele seria o nosso último momento de confidências e desabafos, teria ficado com ela mais tempo. Infelizmente, não fiquei. De lá para cá foram telefonemas rápidos, visitas rápidas, encontros rápidos, até o início desse pesadelo todo.
Na sexta-feira pela manhã, na porta do DPT, lembro que Tarcilly me abraçou e disse baixinho, no meu ouvido: ‘Mano, Heide é SUA amiga, como é MINHA, mas nós vamos velar o seu corpo junto ao corpo de Léo. É um desejo da mãe dela, e você tem que respeitar isso, ta?’ Fiquei calada. Eu não tinha e nem tenho o direito de julgar. Léo estava doente. Doença da alma e do coração. Essa, o homem não cura. Ele não era um bom pai e um bom filho. Segundo ela, ele
era um EXCELENTE pai e um EXCELENTE filho. E em nome desse amor dele por Caio e por sua família, em sua sã consciência, ele jamais teria tido a coragem de fazer o que fez...
À tarde, não consegui acreditar que estava ali velando o corpo da minha amiga ‘superpoderosa’, minha ‘dupla’, minha ‘gêmea’, minha ‘par’, como já escutamos tantas vezes. Quem mais vai me mandar estudar?!? Quem mais vai me ligar apenas pra dizer ‘amiga, tô com saudade’?!? Difícil de acreditar que eu não vou ver todos os seus planos se tornarem verdade. Difícil enterrar ali uma vida iluminada, inteligente, cheia de sonhos.
Difícil enterrar a MINHA AMIGA!
Vim embora antes de assistir a essa cena...Peço a Deus que dê paz aos dois. Peço também que transforme a minha dor em saudade. Hoje ela ainda é grande demais...
Início de 2008, primeiro semestre de Direito na antiga Facsul (hoje UNIME), sento ao lado de Heide, quem eu já conhecia há muito tempo, mas não tinha estabelecido grandes laços. Ainda observando a turma, percebo uma colega adentrando a sala com uma roupa extravagante. Entreolhamos-nos com cara de riso, quando ela me perguntou: ‘será que estamos rindo da mesma coisa?’ Estava traçada ali uma AMIZADE mais forte do que eu imaginava. Foi um ano de muita parceria, trabalhos acadêmicos, provas em dupla, conversas e confidências. Um ano de amizades e laços indescritíveis. No início de 2009 Heide me avisou que precisava transferir de faculdade. Já matriculada, não sei ao certo por quanto tempo ainda continuei indo à UNIME. Lembro que um dia a encontrei na rua e no outro dia, à noite, já estávamos JUNTAS numa sala de aula na FTC, rindo, conversando, tendo nossos tantos devaneios sobre o futuro, sobre a vida, sobre as pessoas ao nosso redor. Eu nunca soube dizer NÃO pra ela. Lembro ainda que, logo nas primeiras semanas de aula, o professor e advogado Francisco Valdece pediu que a dupla SUPERPODEROSA ‘calasse a boca’ e prestasse atenção na aula. Rimos muito porque, coincidentemente, era o apelido que tínhamos, com Anna Vitória e Dani, quando na Unime...
Nós nunca fomos amigas de farra, de mesa de bar. Nossa amizade foi pautada no companheirismo diário. Na verdade, Caio e Léo sempre foram prioridades para Heide. Por isso, nos víamos e conversávamos muito pouco durante os finais de semana. Porém, era comum receber telefonemas ou torpedos que diziam: ‘amiga, me conte sua vida’, ‘amiga, manda notícias’, ‘amiga, estava olhando seu orkut: sua vida me diverte!’, ‘amiga, eu já disse que te amo hoje?’ (as respostas sempre foram recíprocas verdadeiras) Heide raramente me chamou de Manuela. Era ‘amiga’ ou no máximo Manu ou Mano, embora tenha morrido de vergonha quando Caio disse que eu não tinha cara de Tia Manu, só de Manu. ‘Amiga, Caio sabe das coisas, é inteligente... ’
(...)Durante esses dois anos e meio de convivência ela se tornou uma pessoa muito especial em minha vida, com quem eu aprendia e conversava muito. Simples, meiga, inteligentíssima, era capaz de me ligar e dizer ‘amiga, me passa sua parte do trabalho pra eu fazer porque você vai sair e vai ficar com preguiça no domingo’ com o mesmo tom de voz meigo que dizia ‘amiga, vamos fazer alguma coisa hoje?’ E a gente sempre fazia. Eram programas e momentos simples, mas únicos, que vão ficar na minha memória para sempre: comer alguma besteira na rua, tomar coca-cola zero no shopping, ou passear na Marisa. (risos) Porém, eu nunca fiz planos de montar um escritório com Heide. Eu sempre tive a CERTEZA que minha AMIGA iria passar num concurso assim que concluísse o curso, tamanha era a sua facilidade...
De janeiro pra cá, já separada de Léo, Heide queria apenas viver, ou, como ela mesma dizia, ‘ser feliz’, embora não soubesse explicar muito bem o que era essa tal felicidade a que ela se referia. Salvo engano, sua primeira grande festa solteira foi o show da Banda Eva, em Olivença, na companhia de Tici e Tai. Passamos a noite toda na frente do palco quando, insistentemente, ela subia na caixa de som, pulava e abria os braços. O segurança dava risadas e pedia que ela descesse. Dois minutos depois, lá estava ela novamente, sorrindo, achando a maior e melhor diversão do mundo aquela sensação de liberdade que estava experimentando...São incontáveis momentos e estórias, mas lembro com carinho de uma sexta-feira à noite em que
recebi uma ligação sua: ‘Amiga, me leva pra onde você for. Quero me arrumar, quero sair!’ Ela foi comigo a um jantar no Hotel Jardim Atlântico, em Ilhéus. Depois fomos dançar na boate Ballo. Lembro desse dia em especial porque, na volta pra casa, ela me confidenciou que não sabia se iria se acostumar à vida de solteira, e que continuava olhando no espelho e se perguntando: ‘cadê você que não aparece, amor da minha vida?!?’
Heide era uma menina séria e responsável, mas que tinha umas tiradas engraçadas sobre o cotidiano. Éramos unidas pelas confidências, pelos devaneios, pelas tantas observações que fazíamos sobre o comportamento humano. Tenho nítida na minha memória também uma noite em que saímos as duas apenas, fomos ao Restaubar e bebemos muito, coisa que nunca tínhamos feito antes, juntas. Brindamos a tudo: às decepções amorosas, à profissão de advogada cada vez mais próxima, ao São João desse ano, à aquisição da sua primeira moto, a Caio, aos homens com cara de ‘bolo solado’ e a um passeio de cruzeiro que ela tanto sonhava...Não estava namorando, como dizem por aí. Estava ‘vivendo’ algo, sem rótulos. Redescobrindo os sentimentos e descobrindo coisas simples, como a primeira vez em que pintou as unhas de vermelho e demorou a se acostumar, me perguntando a cada segundo se não estava estranho...
(...)
Na quarta-feira passada, quando me ligaram pela primeira vez perguntando por ela, eu estranhei. Na segunda ligação, eu me preocupei. Na terceira, me desesperei. Heide era previsível. Seu celular estava sempre ligado, ela retornava todas as ligações, respondia todos os torpedos e e-mails, e dava satisfação da sua vida com muita facilidade, especialmente por carregar consigo a responsabilidade de ser mãe. Após uma tarde aflita de ligações e busca, fui ao aniversário de Diogo Caldas no Maison Marie. Assim que entrei, me dei conta de que não tinha ido ao salão e sequer lembrado de comprar seu presente. Fiquei me perguntando o que estava fazendo ali, levantei e fui ao encontro dos nossos amigos Candinho e Daniel para que fôssemos à delegacia. Buscávamos uma resposta. Aquela sensação de ‘espera’ foi uma das piores já experimentadas. Muita coisa aconteceu até que na quinta à tarde, sentada na redação deste Diário Bahia, recebi a ligação de minha mãe dizendo: ‘Venha pra casa, minha filha. A notícia não é boa...’ Acho que surtei. De um lado, o alívio por ter encontrado. De outro, a certeza de que nunca mais eu iria escutar a sua voz me chamando de AMIGA.
A primeira cena que me veio à cabeça foi na FTC, recentemente, embora não lembre a data com precisão. Estava fazendo prova numa sala e, quando saí, ela estava sentadinha no banco me aguardando, de surpresa. Disse que queria conversar. Dentre tantas coisas e alguns planos, me confidenciou que estava muito feliz. E isso é o que ME importa. Se soubesse que aquele seria o nosso último momento de confidências e desabafos, teria ficado com ela mais tempo. Infelizmente, não fiquei. De lá para cá foram telefonemas rápidos, visitas rápidas, encontros rápidos, até o início desse pesadelo todo.
Na sexta-feira pela manhã, na porta do DPT, lembro que Tarcilly me abraçou e disse baixinho, no meu ouvido: ‘Mano, Heide é SUA amiga, como é MINHA, mas nós vamos velar o seu corpo junto ao corpo de Léo. É um desejo da mãe dela, e você tem que respeitar isso, ta?’ Fiquei calada. Eu não tinha e nem tenho o direito de julgar. Léo estava doente. Doença da alma e do coração. Essa, o homem não cura. Ele não era um bom pai e um bom filho. Segundo ela, ele
era um EXCELENTE pai e um EXCELENTE filho. E em nome desse amor dele por Caio e por sua família, em sua sã consciência, ele jamais teria tido a coragem de fazer o que fez...
À tarde, não consegui acreditar que estava ali velando o corpo da minha amiga ‘superpoderosa’, minha ‘dupla’, minha ‘gêmea’, minha ‘par’, como já escutamos tantas vezes. Quem mais vai me mandar estudar?!? Quem mais vai me ligar apenas pra dizer ‘amiga, tô com saudade’?!? Difícil de acreditar que eu não vou ver todos os seus planos se tornarem verdade. Difícil enterrar ali uma vida iluminada, inteligente, cheia de sonhos.
Difícil enterrar a MINHA AMIGA!
Vim embora antes de assistir a essa cena...Peço a Deus que dê paz aos dois. Peço também que transforme a minha dor em saudade. Hoje ela ainda é grande demais...
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