Para sempre uma saudade chamada HEIDE...
Início de 2008, primeiro semestre de Direito na antiga Facsul (hoje UNIME), sento ao lado de Heide, quem eu já conhecia há muito tempo, mas não tinha estabelecido grandes laços. Ainda observando a turma, percebo uma colega adentrando a sala com uma roupa extravagante. Entreolhamos-nos com cara de riso, quando ela me perguntou: ‘será que estamos rindo da mesma coisa?’ Estava traçada ali uma AMIZADE mais forte do que eu imaginava. Foi um ano de muita parceria, trabalhos acadêmicos, provas em dupla, conversas e confidências. Um ano de amizades e laços indescritíveis. No início de 2009 Heide me avisou que precisava transferir de faculdade. Já matriculada, não sei ao certo por quanto tempo ainda continuei indo à UNIME. Lembro que um dia a encontrei na rua e no outro dia, à noite, já estávamos JUNTAS numa sala de aula na FTC, rindo, conversando, tendo nossos tantos devaneios sobre o futuro, sobre a vida, sobre as pessoas ao nosso redor. Eu nunca soube dizer NÃO pra ela. Lembro ainda que, logo nas primeiras semanas de aula, o professor e advogado Francisco Valdece pediu que a dupla SUPERPODEROSA ‘calasse a boca’ e prestasse atenção na aula. Rimos muito porque, coincidentemente, era o apelido que tínhamos, com Anna Vitória e Dani, quando na Unime...
Nós nunca fomos amigas de farra, de mesa de bar. Nossa amizade foi pautada no companheirismo diário. Na verdade, Caio e Léo sempre foram prioridades para Heide. Por isso, nos víamos e conversávamos muito pouco durante os finais de semana. Porém, era comum receber telefonemas ou torpedos que diziam: ‘amiga, me conte sua vida’, ‘amiga, manda notícias’, ‘amiga, estava olhando seu orkut: sua vida me diverte!’, ‘amiga, eu já disse que te amo hoje?’ (as respostas sempre foram recíprocas verdadeiras) Heide raramente me chamou de Manuela. Era ‘amiga’ ou no máximo Manu ou Mano, embora tenha morrido de vergonha quando Caio disse que eu não tinha cara de Tia Manu, só de Manu. ‘Amiga, Caio sabe das coisas, é inteligente... ’
(...)Durante esses dois anos e meio de convivência ela se tornou uma pessoa muito especial em minha vida, com quem eu aprendia e conversava muito. Simples, meiga, inteligentíssima, era capaz de me ligar e dizer ‘amiga, me passa sua parte do trabalho pra eu fazer porque você vai sair e vai ficar com preguiça no domingo’ com o mesmo tom de voz meigo que dizia ‘amiga, vamos fazer alguma coisa hoje?’ E a gente sempre fazia. Eram programas e momentos simples, mas únicos, que vão ficar na minha memória para sempre: comer alguma besteira na rua, tomar coca-cola zero no shopping, ou passear na Marisa. (risos) Porém, eu nunca fiz planos de montar um escritório com Heide. Eu sempre tive a CERTEZA que minha AMIGA iria passar num concurso assim que concluísse o curso, tamanha era a sua facilidade...
De janeiro pra cá, já separada de Léo, Heide queria apenas viver, ou, como ela mesma dizia, ‘ser feliz’, embora não soubesse explicar muito bem o que era essa tal felicidade a que ela se referia. Salvo engano, sua primeira grande festa solteira foi o show da Banda Eva, em Olivença, na companhia de Tici e Tai. Passamos a noite toda na frente do palco quando, insistentemente, ela subia na caixa de som, pulava e abria os braços. O segurança dava risadas e pedia que ela descesse. Dois minutos depois, lá estava ela novamente, sorrindo, achando a maior e melhor diversão do mundo aquela sensação de liberdade que estava experimentando...São incontáveis momentos e estórias, mas lembro com carinho de uma sexta-feira à noite em que
recebi uma ligação sua: ‘Amiga, me leva pra onde você for. Quero me arrumar, quero sair!’ Ela foi comigo a um jantar no Hotel Jardim Atlântico, em Ilhéus. Depois fomos dançar na boate Ballo. Lembro desse dia em especial porque, na volta pra casa, ela me confidenciou que não sabia se iria se acostumar à vida de solteira, e que continuava olhando no espelho e se perguntando: ‘cadê você que não aparece, amor da minha vida?!?’
Heide era uma menina séria e responsável, mas que tinha umas tiradas engraçadas sobre o cotidiano. Éramos unidas pelas confidências, pelos devaneios, pelas tantas observações que fazíamos sobre o comportamento humano. Tenho nítida na minha memória também uma noite em que saímos as duas apenas, fomos ao Restaubar e bebemos muito, coisa que nunca tínhamos feito antes, juntas. Brindamos a tudo: às decepções amorosas, à profissão de advogada cada vez mais próxima, ao São João desse ano, à aquisição da sua primeira moto, a Caio, aos homens com cara de ‘bolo solado’ e a um passeio de cruzeiro que ela tanto sonhava...Não estava namorando, como dizem por aí. Estava ‘vivendo’ algo, sem rótulos. Redescobrindo os sentimentos e descobrindo coisas simples, como a primeira vez em que pintou as unhas de vermelho e demorou a se acostumar, me perguntando a cada segundo se não estava estranho...
(...)
Na quarta-feira passada, quando me ligaram pela primeira vez perguntando por ela, eu estranhei. Na segunda ligação, eu me preocupei. Na terceira, me desesperei. Heide era previsível. Seu celular estava sempre ligado, ela retornava todas as ligações, respondia todos os torpedos e e-mails, e dava satisfação da sua vida com muita facilidade, especialmente por carregar consigo a responsabilidade de ser mãe. Após uma tarde aflita de ligações e busca, fui ao aniversário de Diogo Caldas no Maison Marie. Assim que entrei, me dei conta de que não tinha ido ao salão e sequer lembrado de comprar seu presente. Fiquei me perguntando o que estava fazendo ali, levantei e fui ao encontro dos nossos amigos Candinho e Daniel para que fôssemos à delegacia. Buscávamos uma resposta. Aquela sensação de ‘espera’ foi uma das piores já experimentadas. Muita coisa aconteceu até que na quinta à tarde, sentada na redação deste Diário Bahia, recebi a ligação de minha mãe dizendo: ‘Venha pra casa, minha filha. A notícia não é boa...’ Acho que surtei. De um lado, o alívio por ter encontrado. De outro, a certeza de que nunca mais eu iria escutar a sua voz me chamando de AMIGA.
A primeira cena que me veio à cabeça foi na FTC, recentemente, embora não lembre a data com precisão. Estava fazendo prova numa sala e, quando saí, ela estava sentadinha no banco me aguardando, de surpresa. Disse que queria conversar. Dentre tantas coisas e alguns planos, me confidenciou que estava muito feliz. E isso é o que ME importa. Se soubesse que aquele seria o nosso último momento de confidências e desabafos, teria ficado com ela mais tempo. Infelizmente, não fiquei. De lá para cá foram telefonemas rápidos, visitas rápidas, encontros rápidos, até o início desse pesadelo todo.
Na sexta-feira pela manhã, na porta do DPT, lembro que Tarcilly me abraçou e disse baixinho, no meu ouvido: ‘Mano, Heide é SUA amiga, como é MINHA, mas nós vamos velar o seu corpo junto ao corpo de Léo. É um desejo da mãe dela, e você tem que respeitar isso, ta?’ Fiquei calada. Eu não tinha e nem tenho o direito de julgar. Léo estava doente. Doença da alma e do coração. Essa, o homem não cura. Ele não era um bom pai e um bom filho. Segundo ela, ele
era um EXCELENTE pai e um EXCELENTE filho. E em nome desse amor dele por Caio e por sua família, em sua sã consciência, ele jamais teria tido a coragem de fazer o que fez...
À tarde, não consegui acreditar que estava ali velando o corpo da minha amiga ‘superpoderosa’, minha ‘dupla’, minha ‘gêmea’, minha ‘par’, como já escutamos tantas vezes. Quem mais vai me mandar estudar?!? Quem mais vai me ligar apenas pra dizer ‘amiga, tô com saudade’?!? Difícil de acreditar que eu não vou ver todos os seus planos se tornarem verdade. Difícil enterrar ali uma vida iluminada, inteligente, cheia de sonhos.
Difícil enterrar a MINHA AMIGA!
Vim embora antes de assistir a essa cena...Peço a Deus que dê paz aos dois. Peço também que transforme a minha dor em saudade. Hoje ela ainda é grande demais...

2 comentários:
Essa carta de Manu eh Linda d+! Não tem cm não ler e não chorar! Muita saudade
E aí eu venho aqui, leio essas palavras novamente, e choro de saudades...
Cada frase escrita nesse texto tem um significado só meu. E só dela. Dos momentos que passamos juntas, e que ela me fez muito feliz sendo minha AMIGA! Daquelas que o tempo JAMAIS conseguirá apagar...
Postar um comentário