segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O Perdão não é vendido em farmácia

GESTOS DE GRANDEZA MORAL
“Perdão foi feito pra gente pedir”, cantava o inesquecível Ataulfo Alves, e eu
acrescentaria: perdão foi feito para ser dado também. Foi o que aconteceu com os
tenores espanhóis Plácido Domingo e José Carreras, os quais se tornaram inimigos em
1984, devido a questões políticas.
Em 1987, porém, José Carreras descobriu que tinha leucemia. Submetendo-se a
tratamentos sofisticados, viajava mensalmente aos Estados Unidos. Sem poder trabalhar,
e com o alto custo das viagens e do tratamento, logo sua razoável fortuna acabou.
Sem condições financeiras para prosseguir com o tratamento, Carreras tomou
conhecimento de uma clínica em Madrid, denominada Fundación Hermosa, criada com a
finalidade única de apoiar a recuperação de leucêmicos. Graças ao apoio dessa clínica,
ele venceu o câncer. Voltando a cantar e a receber altos cachês, José Carreras tratou
logo de se associar à Fundação, para ajudá-la financeiramente.
Foi então que, lendo o estatuto da Fundación Hermosa, descobriu que seu
fundador, maior colaborador e presidente era Plácido Domingo. Mais do que isso,
Carreras descobriu que a clínica fora criada, em princípio, para atender exclusivamente a
ele mesmo. Plácido se mantinha no anonimato para não constrangê-lo a aceitar o auxílio
de seu inimigo.
Momento muito comovente aconteceu durante uma apresentação de Plácido, em
Madrid. De forma imprevista, Carreras interrompeu o evento e se ajoelhou a seus pés.
Pediu desculpas a Plácido publicamente, agradecendo o benefício de seu
restabelecimento.
Mais tarde, uma repórter perguntou, numa entrevista a Plácido Domingo, por que
ele criara a Fundación Hermosa; afinal, além de beneficiar um inimigo, ele concedera a
oportunidade de reviver Carreras, um dos poucos artistas que poderiam lhe fazer alguma
concorrência. Sua resposta foi simplesmente a seguinte: “Porque uma voz como a dele
não se podia perder”. Diante de gestos de tamanha grandeza moral como os de Plácido e
Carreras, afirmamos que os dois, de fato, exemplificaram o perdão e a humildade
ensinados por Jesus.
NÃO É VENDIDO NAS FARMÁCIAS
Para irradiarmos a luz do perdão, não resta dúvida de que precisamos sair da
“tolerância zero” para a “tolerância máxima”, recomendada e vivida por Jesus. Somente
perdoando incondicionalmente aos nossos inimigos, e talvez o mais difícil, àqueles que
tiraram a vida de nossos familiares, é que poderemos promover definitivamente a paz na
Terra. No entanto, se desejamos concretamente a paz, é preciso então eliminar estes
sentimentos inferiores, usando o perdão em qualquer circunstância de nossas vidas.
Se, para irmos a forra de uma violência recebida contra nós, ou contra os nossos
familiares, revidarmos com outro ato violento, ou seja, “pagando na mesma moeda”,
cairemos num circulo vicioso, alimentando a própria violência. Foi por isso que Jesus,
antes de sair da Terra dependurado numa cruz, apontou-nos o caminho e a única saída
para a paz, ao rogar a Deus o perdão para seus algozes. Não há outra saída mesmo!
Sem perdão, não há solução para a paz!
Portanto, se queremos ter paz e saúde em nossas vidas (e este, acredito, é um dos
maiores sonhos de todo ser humano), devemos usar o remédio mais eficaz receitado por
Jesus: o perdão! Mas atenção: ele não é vendido nas farmácias, porém pode ser
encontrado à nossa disposição no íntimo de nossa alma. E mais: não custa nada, apenas
a nossa decisão de usá-lo.
Gerson Simões Monteiro
é Presidente da Fundação Cristã-Espírita
Cultural Paulo de Tarso
e-mail: gerson@radioriodejaneiro.am.br

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