Sâmara Jorge
Psicóloga. Psicoterapeuta de Orientação Junguiana
Elas são Marias, Eloás, Lúcias, Helenas, Carolinas, Cássias...
Pertencem a diferentes classes sociais, níveis intelectuais, atividades
profissionais, cores e raças...
Em comum têm apenas uma coisa: foram ou são agredidas por
seus maridos ou namorados, pais ou padrastos de seus filhos... Escolheram esses
homens para compartilhar a vida, formar uma família, dividir alegrias e
tristezas, lutar com eles por uma vida melhor... Acreditaram que o amor que
sentiam e dedicavam a eles os ajudariam a mudar... A cada dia, após uma briga ou
agressão, um pedido de desculpas e a promessa de que aquilo não mais
aconteceria, reacendia a esperança... Até o dia em que descobrem que as
esperanças foram jogadas ao vento... O cenário interno é de pós-guerra... Não há
mais nada, a não ser um sentimento de destruição, medo, vergonha, marcas
irreversíveis no corpo e na alma e uma dor profunda, que leva tempo, muito tempo
para acabar... Isso sem falar nas que morreram, vítimas das agressões e nos
filhos que ficaram sem mães e pais que ficaram sem suas filhas...
Infelizmente os jornais quase que diariamente dão esse tipo
de notícia. E muitos de nós ouvimos e pouco nos comovemos ou paramos para pensar
na gravidade do assunto.
Por mais terrível que pareça, ainda hoje não é raro ouvirmos
algumas pessoas dizendo que as mulheres gostam de apanhar, ou provocam seus
maridos e por isso são tratadas dessa forma ou ainda que merecem apanhar, pois
não fazem nada para mudar essa situação.
Esse deboche é tão agressivo quanto a atitude agressiva
desses homens para com suas mulheres. Comentários desse tipo deveriam, sim, nos
causar indignação, pois revelam ignorância e insensibilidade frente a uma
terrível dor.
Outra forma de agressão é o pouco investimento em recursos
para o amparo dessas mulheres, tais como abrigos, acompanhamento psicológico
para toda a família, agilização dos processos, etc.
E como se tudo isso não bastasse, a agressão masculina
dirigida às suas companheiras é banalizada, pois costuma ser vista como "briga
de casal" e segundo o ditado popular, "em briga de marido e mulher não se mete a
colher". Aqui estamos diante de uma terrível distorção, pois agressão física ou
verbal, palavras de baixo calão e situação de humilhação são casos de polícia e,
por vezes, de saúde pública e quem os presenciar deve se meter sim!
É natural que existam brigas e conflitos em todas as relações
. O que não é natural é quando apenas uma das partes exerce seu poder de forma
autoritária, impossibilitando o outro de exercer o seu direito de expressão. E é
essa a dinâmica que se estabelece em casais cujas mulheres sofrem violência.
Em geral, o homem intimida a mulher através da força física e
das ameaças de agressão aos filhos. As que dependem finaceiramente de seus
companheiros ainda se veem reféns da ameaça de ver sua família passar por
privações, caso reajam às atitudes violentas do marido.
Quando começam as agressões, a grande maioria das mulheres
acredita se tratar de episódios isolados e quanto mais passiva for a sua
atitude, quanto menos denunciar e mais esconder, mais frequentes e violentos
eles costumam se tornar.
Pronto! Está estabelecida a relação de submissão, que vai
minando a força da mulher, comprometendo sua auto-estima, de forma que, a cada
agressão, menos reconheça sua própria força e suas capacidades para sair da
situação em que se encontra. Atribui, cada vez mais, um imenso poder ao agressor
e passa a ser acompanhada de um medo constante de falar, emitir opiniões,
manifestar desejos ou sentimentos. Como também acha que pode controlar os
destemperos do marido passa a evitar situações que acredita serem
desencadeadoras de sua agressividade. Por exemplo, se ele gosta de silêncio, não
deixa as crianças fazerem barulho; se reclama da bagunça da casa, procura manter
tudo em ordem; se não sabe esperar, atende de pronto os seus pedidos e assim por
diante.
Como resultado, recolhe-se e esconde as agressões sofridas,
não apenas em função do medo, mas, especialmente pela vergonha que sente por ser
agredida. E acaba por viver de forma muito solitária todo esse horror.
Contudo, fico me perguntando: Quem deve ter vergonha? A
mulher que foi agredida, ou o homem que covardemente impõe à sua mulher e filhos
um clima de terror? Certamente ele deveria se envergonhar e refletir sobre suas
atitudes, pois dessa forma poderia buscar ajuda e compreender o que o leva a
agir dessa maneira.
Gostaria aqui de fazer um parêntese para rapidamente dirigir
o olhar para a questão do masculino.
Certamente, não há justificativa para tais atitudes,
entretanto alguns pontos devem ser levados em conta. O agressor também é vitima
de si mesmo, uma vez que não consegue controlar sua agressividade, não sabe o
que fazer com suas emoções, fragilidades e frustrações (inevitáveis na vida de
qualquer um de nós). Em geral agridem, porque não acessam os reais sentimentos
vividos em determinadas situações, então, reagem agressivamente. Muitos
aprenderam que, para exercer sua masculinidade devem ser brutos e autoritários,
mas no fundo, toda essa arrogância e prepotência podem estar a serviço de
esconder, em seus recônditos mais profundos, dores, inseguranças, humilhações
vividas, maus-tratos...
O homem que agride também precisa de ajuda e acompanhamento.
Em primeiro lugar, porque representa um perigo real para os que estão ao seu
redor, principalmete para a sua família e mais especificamente para a
companheira. E segundo, mas não menos importante, pela necessidade de olhar para
si mesmo e buscar o caminho do crescimento. Muitos desses homens acabam por ter
uma vida infeliz ou acabam com a própria vida. Perdem a família, a mulher a quem
amam, o amor e o respeito dos filhos e, em casos extremos, perdem sua liberdade,
pois acabam presos por chegar às últimas consequências.
Bem, voltando às mulheres, é preciso que levem a sério os
riscos que correm e busquem ajuda o mais rápido possível. Mulheres agredidas
tendem a achar que não acontecerá nada pior e que a situação está sob controle.
Entretanto é preciso ter cuidado, pois essa é uma falsa impressão. Procurar
todos os recursos, tais como a proteção de algum membro da família ou de amigos,
buscar ajuda psicológica, orientação jurídica e assistência social pode ser a
melhor saída.
Superar o medo e a vergonha é uma situação muito difícil, mas
denunciar e expor a situação é a única saída possível para a grande maioria das
mulheres nessa condição. Certamente, ao olharem para dentro de si mesmas,
perceberão o esfacelameto de suas personalidade, mas é preciso acreditar que o
tempo é um grande aliado para a reconstrução da vida e que todos os recursos
necessários estão lá, dentro de si mesmas. Certamente, com ajuda
psicoterapêutica será possível descobrir, antes de tudo, a imensa força que
existe dentro de si, pois é preciso ser muito forte para suportar uma situação
de violência.
Esse é, sem dúvida, o melhor caminho para que potenciais,
qualidades, aspectos criativos, desejos, capacidade de tomar decisões e amor
próprio desabrochem e floresçam, possibilitando, assim, que o brilho do sorriso,
o respeito e a liberdade voltem a fazer parte de suas vidas.
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